O belga Wim Delvoye provoca reflexões ao utilizar pneus e botijões de gás descartados para criar obras de arte sustentáveis

Falar sobre a arte de Wim Delvoye é também uma discussão de primazia. Afinal, é sua obra que choca ou é o choque que a gera?


Autodeclarado explorador de bizarrices e conhecido pelos porcos tatuados com imagens famosas e que ele cria hoje em uma fazenda na China, após uma série de litígios na Europa com o conglomerado LVMH –, o artista tem também um lado soft, cultivado em objetos que ele resgata e reinventa com leveza.

Foto: iloboyou.com


Além de entusiasta da tecnologia em seus projetos mais ambiciosos, como transformar a carcaça de aço de um caminhão em um enorme arabesco, Delvoye é também um defensor do lugar da habilidade manual na arte contemporânea.

Os botijões de gás reposicionados como arte, que estrearam no fim dos anos 1980, foram pintados em traços finos para evocar as porcelanas típicas da burguesia europeia nos séculos 17 e 18. Os pneus, em uma série contínua que começou em 2007, têm seus padrões delicados talhados à mão e transformam-se em canvas ao estilo art déco, com florais, frutas e outros traços ornamentais.


Foto: Arquivo pessoal Win Delvoye

Assim, o artista prolonga a vida de objetos que eram até então puramente funcionais, ao mesmo tempo em que os mantêm reconhecíveis e provoca reflexões. Nas palavras do filósofo e conterrâneo Willem Elias, ao confrontar dois contextos desconectados em uma só obra, como um botijão e porcelana, o artista produz uma versão atual da técnica de trompe l’oeil: “Ele trai os olhos do espectador ao forçar a comparação entre imagens de dois ou mais mundos, até que o espectador não saiba mais o que está vendo”.


Estudioso da arte europeia e crítico de sua ordem geopolítica, Delvoye aplica nessas peças sem valor alguns dos temas benquistos do continente, que lembram seus momentos áureos de influência global e que contrastam com sua situação atual de decadência econômica e incerteza social. Questionado pela revista Bing 05 se suas metades artísticas poderiam ser uma só, Wim foi direto. “Tudo que é bom na arte é ‘inútil’. O ornamento, até certo ponto, também é uma forma de detrito”, conclui. Mais um toque de provocação, só para não perder o costume. www.wimdelvoye.be.


Texto: Ana Pinho


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